quarta-feira, 29 de abril de 2009

texto de Pierre Léglise Costa

Um espelho


Na pintura francesa provençal do século XV, alguns quadros grandes e importantes estão divididos em duas partes distintas : uma parte inferior, mais densa e horizontal, com cores de terra, com multidões humanas e confusões urbanas e uma parte superior, muito maior, aérea, de azuis transparentes e personagens celestes com cores de arco-íris. Na pintura italiana dos séculos XV e XVI a predela conta a história e o quadro superior apresenta o momento divino que o crente deve admirar. Não sei se Maria Côrte-Real viu alguns desses quadros, se por acaso neles pensou, ou se simplesmente a via que pouco a pouco seguiu na sua experiência pictórica assim como a sua reflexão religiosa a levaram para essa divisão entre terra e céu ; mas quando se olha para o quadro maior desta exposição não podemos deixar de observar o magma telúrico na base e o voo das flores onde domina o azul. Num outro quadro, de grandes dimensões também, as flores já ocupam a totalidade do espaço, vogando no ar, desabrochadas, transportadas pela leveza de se sentirem destacadas das contingências terrenas. Num quadro de Warhol, que pertence agora a uma colecção portuguesa, o artista fixou numa espacialidade azul flores bem abertas, mas só o contorno se destaca, o interior esbateu-se, e o azul do fundo é escuro, vagamente ameaçador, impedindo as flores de se escaparem como parecem desejar. As flores de Maria Côrte-Real sentem-se bem no espaço que ela lhes reservou.

A série de quadrinhos pequenos poder-se-ia entender como um diálogo ou até dialéctica ao mesmo tempo pictórica e metafórica com os quadros de maiores dimensões. Pinturas aparentemente mais leves, tanto na forma como na matéria, induzem no entanto a observação para os diversos momentos da vida, as referências aos textos bíblicos, os pequenos nadas que constituem o todo. E veja-se como saem do rectângulo ou do quadrado tradicional, para se alastrarem e cobrirem os lados, rodearem o caixilho que segura a tela, tansformando assim o quadrinho numa caixa sem base. Assim não fecham nada, deixam suspensa a reflexão – o que reflectem do mundo, o que reflectem do imaginário da pintora, o que reflectem do imaginário do espectador. Essas falsas caixas tansmitem igualmente uma bela noção de sensualidade, a pintora pode mantê-las na mão, manipulá-las como objectos de uso caseiro, sentir a tinta nos dedos ao pegar nelas para pintar os lados ; e talvez tenha vontade de ir até ao interior do caixilho, aí onde o público não vê, mas que o artista sabe que existe. As caixas são feitas para guardar segredos.

E esses segredos são como a construção, pormenor por pormenor, duma existência na Terra, bem indicada no texto bíblico motor da criação de Maria Côrte-Real. Para depois se poder melhor voar como as flores no azul do sempre.


Pierre Léglise-Costa


Setembro/Outubro2008